Sunday, February 12, 2006

de grito em grito: foi assim que eu cheguei no jeg

cortou-me pela direita, fdp! gritei!. gritei não, explodi! não sei como não rebentou os vidros do nosso bom e velho gurgel, comprado por exigência da minha mulher, que bateu pé: tem de ser TR. a esta altura ela olhava-me com aquela cara que todo sujeito tem de ser olhado quando se descontrola no trânsito que, sendo ou não sendo, fica com cara de imbecil filho de anta. aí, perdi a pose. mas não perdi o rebolado. e pensei cá comigo: terapia do grito. gritei, extravasei, vou economizando um infarto a menos, um avc, afinal de contas, pombas! um homem também tem direito de dar seus gritinhos, sorrindo cá comigo.

TR tocantins, disse-me ela. tem um pouquinho mais de espaço e fechado, é mais seguro para mim. não é melhor um fiat, ainda sugeri? não. é caro e todo mundo fica de olho. gurgel é mais seguro e valente, manutenção mais barata, com sorte nem guardador de carro encosta. como ia eu discordar?

mal passado do corte pela direita eis que pelo retrovisor vejo uma lembrança nebulosa prestes a passar por mim. não era amarelo como o primeiro que ví na vida. era branco e mal identifiquei a cor, passou-me. dei outro grito, timbre diferente, olhar diferente da minha mulher, mas o volume foi dobrado. um JEG! era um JEG , JEG, viu isso um JEG!?( se a terapia do grito funciona mesmo, de avc e de infarto eu não morria mais).

entre o surto da hora e a maresia das lembranças de quase trinta anos atrás, uma esquina e um posto de gasolina na domingos ferreira, em boa viagem, no recife. o jeg sinaliza e entra. entro também. ele pára e se abastece. eu encosto e o olhar do dono já é um sorriso identificando e identificando-se como só mesmo aqueles malucos que gostam de carros velhos ou de carros que não cairam no gosto popular, uma categoria que difere dos colecionadores ou amantes de potencia e cromados, sabem identificar.

ele me cumprimenta e deixa eu tomar conta com olhar. é um policial civil, diz que o jeg além de estar bem, melhor não há. é branco, inteiraço, quase todo original, salvo, digo isto, por conta do estepe, ou pneu reserva que traz em cima do capô, o que me deixa em dúvida se é adaptação ou se ainda remonta aos primeiros, ainda projeto da volkswagen, que realmente trazia o sobressalente no capô. mal tive tempo de perguntar. e o jeg já estava indo embora. deu pra notar que os protetores de para lama, aquelas borrachas que impedem a lama de passar, todas tinham o logotipo jeg. mais detalhes, e o jeg já estava longe.

cheiro de gasolina aquecendo a memória. o primeiro jeg que ví, era amarelo como o sol à pino que fazia na praia de tambaú, em joão pessoa. primeiro ouvi o barulho para todo sempre “pinando” do 1600 velho de guerra. depois aquela coisa sem capota, com um sujeito sem camisa, tipo bonachão, que dando uma gargalhada tonitroante, concedia uma quase explicação ao meu espanto:— é tão feio que as mulheres adoram, disparando o grito, dele, de guerra? iahuu! enquanto ria e acelerava ao mesmo tempo. acelerava pra desligar o carro? isso não e bom, também lembrei-me. isto feito, estendeu a mão e fechou a apresentação: — meu nome é golinha, sou músico, vou tocar hoje a noite ali ó, apareça, que o jeg não sobe escada, rindo mais uma vez e me mostrando um bar num mezanino acima de um restaurante francês.

não sobe, escada? sei não. levaria quase três decádas para tirar a limpo.
enquanto isto vou construindo nossa história degrau por degrau degrau para vocês subirem comigo em mais um capítulo na próxima semana.

sim, o tal músico, era meio assim como o motor do jeg: fazia um barulhinho bom, mas batia pino de vez em quando.

1 comment:

Ed said...

Ano passado (2007) descobri embaixo de uma lona velha num posto BR lá em Aldeia (Camarajibe-PE) o que parecia ser um Jeg. Não tive coragem de levantar o resto do pano. Era branco e terrivelmente desfigurado por cirurgias que lhe implantaram, entre outras coisas, horrendos faróis quadrados de Mercedinha 608. Deve estar lá até hoje...