Sunday, February 19, 2006

uns amam, outros odeiam. um javali é mesmo temperamental

"Logo que comprei foi uma alegria, que durou pouco, assim que comecei a tentar domar aquele porco, digo Jipe, descobri porque do nome Javali. A começar pelo conforto, não existe posição de dirigir adequada, pula mais que burro xucro, a direção é dura como a de um caminhão carregado, e se desgoverna pros lados, o motor 3 cilindros faz uma barulheira e tremedeira infernal, se soltam os parafusos, racha e quebra a lataria, treme até os dentes da gente, não tem estabilidade, a caixa de mudanças estava sempre quebrada, juntamente c/a caixa de transferencia, nunca tem freio, a embreagem é uma desgraça, chega a doer a sola do pé, o escapamento esta sempre quebrado, o arranque toca para o lado contrario, pifa e não tem peças, todo o projeto é mal feito, parece tecnologia dos anos 30"
Fernando Almeida, de Santa Vitória do Pomar no Rio Grande do Sul.

"Já ouvi de tudo nessa vida de tangências no mundo fora-de-estrada.Mas uma coisa que nunca ouvi, foi uma opinião sincera quanto ao crucificado jipe CBT Javali; uma das tentativas tupiniquins de veículo 4x4.
Precisei tirar a prova pessoalmente.
Desde os primórdios do meu interesse por esses veículos, quase pouco depois do abandono da sua produção, o último em 1994 segundo constam as informações, quando aprendi a diferenciar Toyotas, Jeeps, Engesas, o Javali sempre me fascinou por uma simples razão; a sua cara. Ele era e é diferente, na cara, na cor e no jeitão.
Não é bonitinho como os Jeeps, não tem cara de cópia japonesa como as Toyotas e tem lá perdido nos cafundés algum parentesco com o Engesa, outra obra prima nacional.
Quando realmente “rompi a barreira” dos carros usuais com o meu primeiro Jeep Ford Willys 1977 original, sentia no fundo no fundo uma sensaçãozinha de traição ao velho admirado. Fica pra próxima... - pensei.
Os anos passaram e andei em quase tudo que tem tração nas 4 rodas nessa vida nem tão vivida assim. O fato é que o tempo passou, o dinheirinho apareceu e as antigas paixões resurgiram. Não queria saber das últimas tecnologias desse mundo fora-de-estrada.
Estava dividido entre duas espécies distintas da fauna automobilística brasileira – um JEG ou um Javali - procurando tomar a decisão quase que escondido dos amigos entendidos, afinal pra turma “radical” de pneus gigantescos mas pintura limpa, mencionar o desejo por qualquer um dos dois, era motivo de qualquer coisa semelhante a uma risadinha.
Risadinha em vão, diga-se de passagem, afinal o que se ouvia era algum comentário de alguém “adestrado” a dizer que ambos não prestavam, sem nunca ter ao menos sentado em algum deles, quiçá visto um espécime de verdade.

Aproveitei uma festa familiar em Porto Alegre pra comprar um CBT, perdido no sítio da antiga proprietária, isso mesmo proprietária, em Gravataí. Bonitão em condições quase originais, um pouco surrado na pintura original. O transporte via carreta cegonha para Brasília foi um parto demorado. Revisão numa oficina despreparada pra receber o jipe, e lá fui eu com pneus e capota novos.

Vamos ao que interessa.
O Javali é um talento desperdiçado, mas com grande potencial.
Desperdiçado porque poderia ter evoluído. Mas não se podia esperar muito de um veículo 4x4 que era vendido ao mesmo preço do popular da época, o Chevette.
Uma lataria, chassis e longarinas absurdamente fortes e bem soldadas, um conjunto de feixes de molas bem estruturado ainda que seja tecnologia antiga.
Um espaço interno inigualável aos jipes do gênero de qualquer lugar do mundo.
Pecou na sua simplicidade e no seu jeito bronco de ser destinado a poucos que poderiam dominá-lo. Um sistema mecânico simples e bruto, mas bastante confiável.
Ótimos freios à disco originais, ótimos diferenciais Danna...isso mesmo...a mesma marca que equipa boa parte dos bonitões de hoje em dia !!
Um motor 3 cilindros Turbo Diesel de 85cv...segundo boatos, cópia de um estacionário Mercedes-Bens bem semelhante...que alguns exagerados, da mesma turma dos “adestrados” lá de cima, diziam surtadamente que trincava a carroceria. Ora, nenhum engenheiro da CBT em sã consciência iria manter a produção de um jipe por 5 anos consecutivos se algum grupo de infelizes tivesse se juntado para apresentar qualquer queixa do gênero na ocasião. Tudo mentira. De fato vibrava como qualquer motor à Diesel de baixa rotação, mas não era nenhum holocausto. Falhou em ser filho único desprovido de atenções do mercado e por desenvolver pouco dentro-de-estrada (sejamos sinceros, uns 100km no máximo) se comparado à outros, apesar de extremamente econômico em todas as situações (uma média de 13km/l de Diesel em 4x2, nada mal....). Esquentar um motor daqueles era quase impossível. Era um motorzinho simpático e bem forte para o mato.

Um sistema de câmbio Clark de quatro marchas...sim !! a mesma marca que equipa alguns do bonitões de hoje em dia....bem macio e de fácil manuseio. Caixa de tração prima do Willys - mesma ordem de engate, o mesmo princípio. Rodas livre AVM manuais...sim !! a mesma marca que bla bla bla...embreagem hidráulica oriunda dos tratores de pequeno porte da falida CBT.

Mas nem tudo era tão simpático assim.
O sistema de Direção...maldito sistema de direção que arriava o braço de qualquer parrudo afoito, que dirá de um simples mortal. É dura...mais dura que casca de tartaruga ou pão velho, nas devidas proporções é claro...eu tô falando sério...é dura !! Alguém lá da CBT na ocasião não ia com a cara do pessoal da ZF, famosa marca de sistemas hidráulicos de direção, ou nunca previu que um dia as pessoas iriam ficar mal acostumadas com o que se tem hoje em dia.

Bom, ele ainda trazia, hoje em dia esquecida, proeza de se baixar o pára-brisa.
Para os que engolem mosquito ou preferem a casca fechada que os protege das temidas mazelas da urbis moderna, onde o jipe transita em 99% das vezes que sai da garagem, isto não faz diferença. Mas pra quem curte um dia de sol, a brisa noturna, e tá pouco se lixando se o chefe vai reclamar do cabelo despenteado, ah sim...dá tanta saudade !!

Enfim, pra quem pretende e pode se aventurar na opção de compra de um Javali, prepare-se pra cuidar de um cara tímido, mas que aceita qualquer roupa nova que muitos não vestem, por um custo muito menor dos que muitos nem tão merecedores e inflacionados senhores à Diesel recauchutados por aí. E se ele ainda estiver como veio ao mundo, parabéns, é a prova de que tudo o que se tem dito de mal vai por água abaixo. Dê uma ligeira atualizada e divirta-se. Só não o tenha como filho único, pra evitar decepções.

A minha estória terminou com um rito de passagem a outro apreciador como eu, nas mesmas circunstâncias de distância, uma estória que poucos acreditam como poucos acreditaram na minha, na ocasião da compra. Foi o sapato que serviu no pé de quem teve vontade de calçá-lo.

E porquê o vendi ? Xii...aí entra uma outra paixão que não vai caber nesse blog.

Boa sorte !!

Rodrigo Medeiros, no seu CBT Javali 4x4 Turbo Diesel – repetindo a máxima: “O Trator que virou jipe”

6 comments:

-VC- said...

Por aqui haviam os saudosos UMM. E tive um, o UMM Alter.
Motor Peugeot e o resto nacional. Era equisito, feio e forte. E por isso lindo.
Acabaram com eles. Acabaram com um bendita raça, quase tão digna como o Cavalo Lusitano.
Enfim, Como tanta coisa aqui em Portugal, restam as memórias.

celso muniz said...

vasco: inesquecíveis UMM. ainda cheguei a andar num, do barrote, jorge barrote, o diretor de arte, lembra? aliás só mesmo o UMM para aguentar o barrote:)
se tiveres alguma foto ou quiseres escrever as tuas lembranças, não se faça de rogado.
na nossa jornada o oceano é apenas mais um riacho a vadear.

-VC- said...

hahahahaha..o UMM do Barrote! Também andei nele. Ele emprestou ao Paul Myhre, outro director de arte, para fazer a mudança da casa. Eu fui com o Paul e nem conseguimos fazer o UMM pegar. Era diesel e tinha aquele truque do botão de aquecimento. Só pegava depois da luzinha desligar. Foi uma aventura. Ainda batemos em não sei o quê...mas o não sei o quê não deve ter ficado muito bem porque o UMM parecia um blindado.
Não tenho fotos do meu. Mas vou arranjar foto de um igual.
Havia também os Portaro. Não eram tão engraçados mas soube que incorporavam alguma tecnologia romena! Isso mesmo..qualquer coisa coisa estrutural, não me lembro o que era.
Enfim..não tenho andado muito de Jipe, mas no que puder vou colaborar. Tem-me faltado um pouco o tempo...
abraço

celso muniz said...

por falar em "tecnologia romena", lembras do ARO? que andou a ser vendido por aí? pois bem,o tal romeno, naturalizou-se brasileiro, pela casa dos 65% de nacionalização, rebatizou-se com o nome de cross lander, e é uma aposta para concorrer com os land rover que por aqui para serem comprados só mesmo por gente que faz trilha de helicóptero. em breve o senhor romeno, um burro chucro e valente vai dar as caras por aqui.
sim, o botão de esquecimento, como costumava chamar o botão de aquecimento. grandes UMM, fez-me pena não ter comprado um, ao menos para ter saudades do arrependimento:)depois das contas com o ortopedista.

-VC- said...

Esses ARO seriam os mesmos? Os Portaro. Podem ter mudado o nome a meio, sei lá. Acho demais haver dois romenos por aqui.
Ainda se vêem muitos UMMs por aqui. Prova de que foram feitos para durar. E como a mecânica é Peugeot, não custa muito arranjar as avarias. Quando ao resto, é tão simples e robusto que qualquer serralheiro arranja. Deve ser por isso que muita gente ainda tem. No outro dia encontrei uma amiga minha que tem um Jeep Willys, original, Pintado de amarelo. Tem um pequeno problema, só: gasta 25 litros a cada 100km

Ed said...

O Javali era um trator CBT travestido de jipe. Diz a lenda que houve um modelo com motor Perkins 4 cilindros justamente para calar a boca dos que reclamavam da trepidação e do baixo desempenho. O Javali foi criado para ser um jipe barato, e era. Se era feio, durão e desconfortável, e daí? Os Ford-Willys também eram e ficaram 40 anos no mercado. Ah tá, hoje só tem lugar para os que preferem acionar a 4x4 naquele odioso e afrescalhado botàozinho no painel....